shared items

Wednesday, May 11, 2005

MERVAL PEREIRA:Alto risco político

 

O que parecia inevitável realmente aconteceu: o Brasil conseguiu, com a Cúpula América do Sul-Países Árabes, desagradar a gregos, troianos e argentinos. Uma política externa agressiva como nunca havia sido tentada antes pelo Itamaraty nos coloca em evidência também nunca experimentada, mas provoca atritos diplomáticos e acessos de ciúmes do mercurial presidente da Argentina.

Ao tentar se aproximar dos países árabes sem causar danos nas relações com o chamado “mundo ocidental”, especialmente Estados Unidos e Israel, o governo brasileiro perdeu o controle da situação e deixou que a Cúpula fosse um palco aberto para ataques de todos os tipos.

Mesmo na Carta de Brasília, onde tentou controlar a abordagem de temas mais delicados como terrorismo e democracia, não conseguiu agradar a todos, como era previsível. Para o professor de História Contemporânea da UFRJ Francisco Carlos Teixeira,“não se pode exagerar, nem para menos nem para mais” a importância da Cúpula, uma iniciativa que considera “ultrapositiva, numa região que tem disponibilidade de capitais para investimento, e uma necessidade imensa de serviços, setor onde nós somos bons e temos tradição de construir estradas, hidrelétricas, usinas, obras urbanas”.

Não há dúvidas, porém, de que passamos a um novo estágio de nossa política externa, que vinha sendo camuflado por explicações tortuosas. Se nunca tivemos uma “relação carnal” com os Estados Unidos, sempre estivemos próximos da superpotência. Hoje, passamos, se não a uma contestação aberta, a pelo menos um distanciamento crítico. Francisco Carlos Teixeira diz que chegou a hora de “termos uma noção muito clara de que parceria nós queremos com os Estados Unidos”.

Uma parceria de tipo novo como a atual, “com grandes interesses comerciais e ao mesmo tempo com um distanciamento político importante”, funciona, segundo ele, “enquanto existir um Chávez (Hugo Chávez, presidente da Venezuela) descontrolado e um Kirchner (Néstor Kirchner, presidente da Argentina) dando calote. No momento em que isso deixar de existir, nossa situação vai ficar insustentável”. O professor da UFRJ diz que é preciso não se enganar: “Somos a opção americana nesse momento por exclusão de todas as demais”.

Para ele, é importante que seja definida logo uma parceria estratégica com os Estados Unidos, possivelmente no âmbito da negociação da Alca que vai ser retomada, pois os Estados Unidos “são a potência do século 21, essa história de Estados Unidos em decadência não é verdadeira. Podem estar atolados no Iraque, mas já estiveram atolados no Vietnã e se recuperaram, esta é uma situação circunstancial, um acidente de percurso para uma grande potência”.

Teixeira diz também que, no Oriente Médio, “não adianta tentar ter relações com o mundo árabe alienando inteiramente Israel”. No momento em que for resolvida a questão palestina, Teixeira acha que “a relação do mundo árabe preferencial vai ser com Israel, que vai se transformar em uma imensa plataforma: de serviços financeiros, de infra-estrutura, de intermediação comercial, em larga escala”.

Já o cientista político Clóvis Brigagão, diretor do Centro de Estudos das Américas da Universidade Candido Mendes, classifica nossa política externa atual de “ambição de alto risco”. Ele concorda que, para um país grande como nosso, “é preferível até jogar com os grandes e perder do que ganhar entre os pequenos”. Mas adverte: todo cuidado é pouco. Segundo ele, há um consenso entre os diplomatas de que “é preciso haver uma certa temperança, nossa diplomacia está pegando muito fogo, assumindo um ar ambicioso, de bravata, de que vai ganhar tudo, de que o mundo estava esperando o Brasil assumir sua liderança e se curvar a ela”.

“O Itamaraty tem uma tradição de fazer uma diplomacia de mediação, de profissionalismo reconhecido”, ressalta Brigagão, para quem muito do que acontece hoje é conseqüência de o governo Lula ter três condutores da política externa: o próprio Lula, através do Marco Aurélio Garcia (assessor internacional), o ministro José Dirceu, e o chanceler Celso Amorim, “que assume essa nova modalidade de risco Brasil”. Brigagão diz que como essa nova postura brasileira “vai incomodar, é preciso adotá-la com muita inteligência, com muita racionalidade, com pé no chão”.

Ele acha que “devemos abrir frentes em todas as regiões para desenvolver nossos mercados, independentemente de este ou aquele país não gostar. Mas precisamos ter uma condução mais homogênea”. O professor Clóvis Brigagão lembra a necessidade de a política do Itamaraty estar afinada com a sociedade brasileira, “que precisa participar mais, assim como o Congresso. À medida que o Brasil sai de seu berço esplêndido para ganhar o mundo — e parece que com ou sem Lula nós vamos ganhar o mundo — precisamos andar de pés no chão e fortalecidos com maior unanimidade”, adverte.

***



O ministro Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicação e Estratégia de Governo, pede para esclarecer um ponto da coluna de ontem, quando ele fala dos “antagonismos complementares” e cita o binômio democracia/ autoridade. Para ele, “os limites da autoridade são os limites democráticos”.

***



A dissertação, e não tese, de Rodrigo de Almeida Ribeiro, intitulada “Ao Brasil sem medo — a idéia petista de nação feliz”, sobre a qual falei nas colunas do fim de semana, foi apresentada no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para a obtenção do grau de mestre em ciência política. No Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), ele está preparando sua tese de doutorado.
O GLOBO



Yahoo! Acesso Grátis: Internet rápida e grátis. Instale o discador agora!

No comments:

Blog Archive