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Saturday, July 22, 2006

Eduardo Jorge foi esmagado por procuradores e jornalistas irresponsáveis. Leia abaixo. PRIMEIRA LEITURA

Em sua edição de setembro de 2002, Primeira Leitura publicou reportagem na qual mostra como o ex-secretário de FHC Eduardo Jorge foi esmagado por procuradores e jornalistas irresponsáveis. Leia abaixo.

    BRASIL ESPECIAL     
 

PRIMEIRA LEITURA — 07


  ILUSTRAÇÃO SOBRE FOTO: JOEDSON ALVES/AE
UMA FARSA EM PRETO-E-BRANCO: Eduardo J. tenta se livrar das malhas do surrealismo
Eduardo J.
ou O Processo

Ele foi esmagado por procuradores e jornalistas irresponsáveis. Nem acusação formal há contra ele. Estrela quando crucificado sem provas, foi esquecido quando sobram evidências de sua inocência. Por Rui Nogueira

Eduardo Jorge Caldas Pereira experimentou e experimenta ainda as agruras de Joseph K., personagem central de O Processo, de Franz Kafka, aquele homem acusado de alguma coisa que ninguém sabe o que é. A diferença está numa certa passividade a distinguir aquela vítima desta. Eduardo J. quer que reconheçam a sua inocência, já que também não consegue saber qual é a acusação. Joseph K. é quase um clichê a servir como emblema de situações absurdas. Acompanhe, leitor, a história. A recorrência é inescapável. No auge do ataque de denuncismo, em julho de 2000, Eduardo J. trancou-se no seu apartamento, no Rio; jamais acendia a luz nos cômodos para não revelar a presença aos jornalistas.

A atenção dos irmãos e de dois assessores de FHC — Eduardo Graef e Andrea Matarazo —, com quem mantinha contatos esporádicos, tirou-o do estado catatônico. Lá fora, a imprensa perseguia pelas ruas da cidade a mulher e o filho mais novo, que acabou perdendo o ano letivo.

Quando o Senado marcou a data do depoimento para 3 de agosto daquele ano, Eduardo J. viajou de carro do Rio para Brasília para não ter de encarar os passageiros no saguão do aeroporto e fugir de olhares curiosos e inquisitoriais no avião. Rodados mais de 700 quilômetros, o motorista parou para o almoço em Três Marias, cidade mineira a poucos quilômetros da divisa com Goiás. Alertado pelo pressentimento de que podia passar por dissabores até em um restaurante de beira de estrada, ficou no carro, enquanto o motorista almoçava. Estava certo.

Ao voltar, o motorista narrou-lhe os comentários de um animado grupo de viajantes que, na mesa ao lado, se regozijavam pelo fato de terem pegado "aquele EJ". O debate dos comensais fora provocado pelo noticiário exibido na TV do restaurante, e o adjetivo menos pesado — e publicável — que o motorista ouvira foi "ladrão". Apesar de ter perdido 12 quilos em 20 dias, o biótipo do ex-secretário-geral da Presidência da República Eduardo J. Caldas Pereira, 60, facilita o reconhecimento e dificilmente escaparia da fúria popular que mordera o Brasil inteiro.

Eduardo J. havia deixado o governo em abril de 1998, participara da campanha da reeleição de FHC e não voltara ao Planalto. Menos de um ano depois de ter saído da vida pública, os holofotes se acenderiam sobre os seus negócios privados. A faísca foi a CPI do Judiciário e uma enxurrada de cartas anônimas.

FALSA INDULGÊNCIA. Dois anos depois de não deixar pergunta sem resposta e sobreviver a duas sabatinas de 14 horas no Congresso — completados no início do mês passado — e de ter aberto três processos contra veículos de imprensa e jornalistas, Eduardo J. perdeu a esperança de obter um mea-culpa espontâneo da mídia. Prepara agora uma ação de reparação de danos morais contra a União. Ainda que vagarosa por tradição, a justiça deve chegar a tempo de fazer um reparo financeiro proporcional aos erros que equipes do Ministério Público Federal, no DF e em SP, cometeram. O contribuinte, por meio da União, pagará a conta.

Os processos contra a imprensa têm uma única motivação: obrigá-la a se retratar e a indenizá-lo por terem jornalistas, revistas e jornais passado da suspeição à acusação sem uma mísera prova. Nem sequer um indício. O Ministério Público justifica-se com uma frase costumeira do procurador Guilherme Schelb: "É impossível arquivar, é uma temeridade denunciar [Eduardo J. ao Judiciário]".

Eduardo J. reconhece e dá crédito às vozes isoladas da imprensa que admitiram o erro de condená-lo sem indícios, mas tornou-se um cidadão obcecado pelo direito de não ser tratado como anistiado. Não quer a falsa indulgência, artifício com que a imprensa vem tentando desembarcar do caso, a cínica constatação de que "nada foi encontrado" contra o ex-secretário-geral. No segundo depoimento ao Senado, no ano passado, ele encerrou sua fala revelando o temor de que o pior — o silêncio da imprensa — ainda poderia estar a caminho. Agora, desafia: "Revisitem o caso, rememorem o que disseram contra mim e desmintam tudo de forma clara e inequívoca".

ADVERTÊNCIA: em e-mail, ao menos um procurador alertou para a mistificação

AÇÕES CAUTELARES. Em duas manhãs de conversa com Primeira Leitura (o que resultou em quatro horas de depoimento gravado e em dezenas de documentos checados), Eduardo J. rejeitou o que jornais e jornalistas lhe oferecem hoje: "Não se trata de arquivamento por falta de provas, pois isso se traduz para a opinião pública na idéia de que houve impunidade, de que o roubo foi bem-feito. Jornalistas e procuradores cristalizaram uma imagem de um Eduardo Jorge sem caráter nem ética. A anistia que se concede a culpados é um perdão".

Eduardo J. quer apenas o justo. É o que esta revista faz ao revirar o caso, ouvir jornalistas, juízes (que pediram para não ser identificados) e familiares e chegar a meia dúzia de constatações elementares e irrefutáveis: 1) até hoje não existe um só processo contra o ex-secretário, nem ao menos uma acusação explicitada; 2) não existe um só indício revelado por todas as investigações abertas; 3) ele nunca foi chamado a depor pelo procurador Luiz Franscisco; 4) depois de duas devassas da Receita, não existe multa alguma por sonegação; nem um só centavo do patrimônio está sem origem clara, transparente e legítima; 5) nem um centavo do caso do Fórum do TRT-SP foi depositado ou transitou por suas contas bancárias; 6) nenhum procurador conseguiu indício suficiente para que o Judiciário concedesse, em nenhum dos casos que constituíram o "caso EJ", quebra de sigilo de suas contas bancárias; 7) por último, mas não menos importante, não existe nada que não permita chamar Eduardo J. de cidadão inocente.

"A manutenção de suspeitas infundadas, hoje, dói tanto quanto as calúnias anteriores", diz. Ele jamais foi denunciado. O que a imprensa chamou o tempo todo de processos são, na verdade, "ações cautelares para a obtenção de elementos para uma investigação que deveria verificar a existência de um crime que nem sequer está definido", ensina um juiz e confirma um procurador. Uma das irmãs de Eduardo J., Maria Delith, executiva do Sebrae, não tem dúvida de que a reparação só se dará por via judicial. "O meu irmão gasta tempo, energia, determinação e competência por algo que é muito improvável. Era o mínimo que a imprensa deveria fazer [reconhecer a inocência], mas não acredito."

O tempo gasto a que se refere Delith é o hábito cotidiano de Eduardo J. de responder, questionar, provocar e sensibilizar os principais jornalistas do país com telefonemas e e-mails que variam entre mensagens de poucas linhas e quilométricos e fundamentados desabafos, além de reptos à imprensa, ora rejeitados, ora ignorados. Desde que saiu das cordas, com o depoimento dado ao Senado naquele 3 de agosto de 2000, ele não deixa reportagem sem resposta e aproveita toda matéria que guarde paralelismo com seu caso — como a investigação do Ministério Público na prefeitura petista de Santo André (SP) — para chamar a atenção dos jornalistas para os critérios de trabalho, a forma como as notícias são construídas.

A TABELA. Desprovida de competência e de capacidade para interferir na batalha judicial que Eduardo J. começou a travar, à Primeira Leitura interessa revelar que parte coube aos jornalistas nesse latifúndio da desonra profissional. O caso pode ser considerado o resultado mais escancarado do parâmetro que transformou a indústria do furo em excelência investigativa e informativa. Nunca o conceito do que seja notícia foi traduzido de modo tão espúrio pela prática da não-apuração das informações (!) publicadas. Na história recente do jornalismo, nunca se enganou tanto leitor em tão pouco tempo e em tanto espaço.

Avalizando boatos e suspeitas sem um mínimo de apuração, os procuradores foram os autores intelectuais da maioria absoluta das reportagens — só não se ocuparam da redação, o que ficou a cargo de jornalistas transformados em digitadores. Por pelo menos seis meses, sucursais de jornais, revistas e emissoras em Brasília, além de redações de jornais locais, não foram mais do que porta-vozes de um grupo do Ministério Público Federal.

A prova mais contundente dessa engambelação é a tabela que o autor desta reportagem viu nas mãos de um jornalista, um "setorista" de Luiz Francisco — aquele repórter que todos os jornais destacaram, no auge do caso Eduardo J., para cobrir o assunto. Por ordem do comando das redações, a cobertura previamente planejada previa que os "setoristas" grudariam nos procuradores para estar sempre a par das suspeitas que chegavam ao Ministério Público. A curiosa tabela, xerocada em uma folha A3, dividia-se em quatro colunas.

A primeira dava título aos casos em que se subdividia o caso Eduardo J., tudo em que supostamente o ex-secretário estaria envolvido; a segunda coluna trazia uma sumaríssima descrição do tal caso, não mais de uma ou duas linhas impressas; a terceira tinha o nome do veículo de comunicação ao qual a Procuradoria entregara o caso — para ajudar (!) na investigação; a quarta estava reservada ao detalhamento do que os jornalistas haviam conseguido investigar, pois, supõe até hoje Luiz Francisco, o caso Eduardo J., assim como outros, só iria adiante graças a "bravos jornalistas que passam noites acordados procurando falcatruas".

PALAVRAS INFELIZES. Em um e-mail de circulação interna, na Procuradoria, provocado por um debate sobre a ação desmedida de certos procuradores e pelo vazamento de informações para a imprensa sem qualquer investigação, Luiz Francisco disse mais: que sempre ficará honrado "por ter estes jornalistas engajados [no sentido de Sartre] como bons amigos e informantes". A razão para tamanha "simbiose entre imprensa e Ministério Público" é que o procurador tem os jornalistas, como definiu no tal e-mail, como "peritos em informações e análises". Apesar dessa perícia, a quarta coluna da tabela do procurador está vazia até hoje.

O Ministério Público Federal não só não obteve indícios contra Eduardo J. como não arrumou tempo, transcorridos quase três anos de investigações, para chamá-lo a depor. A falta de investigações na quarta coluna da burlesca tabela não impediu que jornalistas montassem reportagens de página inteira com as suspeitas descritas na minúscula sinopse da segunda coluna.

Luiz Francisco enquadra-se no grupo de servidores que "tentam fazer alguma coisa". O procurador Cláudio Fontelles, em outro e-mail de circulação interna a que Primeira Leitura teve acesso, rebateu: "São palavras infelizes (...) Nossa missão institucional está muito claramente disposta na Constituição federal, e temos de exercitá-la todos os dias: preservar a dignidade da pessoa humana, preservando o Estado Democrático de Direito e seus postulados". Fontelles acrescentou: "Não temos que produzir — fazer acontecer (?) — fatos jornalísticos que se perdem na rama, porque sempre perfunctórios e trazidos com alta dose de sensacionalismo novelesco, tão peculiar às intrigas de folhetins".

Foi assim que nasceram delirantes reportagens sobre o "caso Boca Raton", o "caso do apartamento no Rio", o "caso Banco do Brasil", o "caso Encol", o "caso Montreal/ Denatran", o "caso Chapecó", para citar apenas os mais esdrúxulos, em que jornais e jornalistas, procuradores e políticos de oposição tinham a convicção de que Eduardo J. era um PC Farias, e o fim do governo FHC seria questão de tempo.

A concorrência predatória entre os grandes jornais, tudo por uma nova suspeita que envolvesse Eduardo J.-FHC, fez o comando da redação de um grande jornal se reunir para detalhar o espírito investigativo que deveria orientar os repórteres: levar a apuração para dentro do Planalto, "pois desta vez nós pegamos o FHC". O presidente teria escapado nos casos da compra de votos da reeleição, dos grampos do BNDES etc., mas "desta vez"...

No caso Eduardo J., faltou substância, mas sobraram adjetivos: "farsante", "corvo", "aspone", "mosca varejeira", "traidor", "refém do Luiz Estevão", "parceiro da trinca com o juiz Nicolau e Estevão". A família foi chamada de "família estatal", e Eduardo J. chegou até a ser envolvido no suicídio de uma secretária e foi acusado de ter ingressado nos quadros do Senado, em 1964, por meio de um concurso fraudado. O vale-tudo havia se instalado nas redações, desenterrava-se de tudo, prevalecia o jornalismo ventania, que sopra para um lado só. Apurar o que os procuradores vazavam era tarefa fora de propósito — quem investisse nessa checagem perderia tempo e, se levasse furo do concorrente que publicou sem apurar nada, ficaria em maus lençóis.

FHC: O ALVO. Em conversa com um jornalista, Eduardo J. ouviu um argumento cândido para essa ferocidade desenfreada: "A República inteira achava isso [que ele era culpado]". Ao que lhe restou responder: "A República inteira achou que os donos da Escola Base eram pedófilos, e não era verdade. A República só acha isso porque a imprensa publicou". A irmã, Delith, resume tudo em uma imagem culinária: "A imprensa bateu as claras que fizeram o bolo crescer". Um dos filhos, Leonardo Pereira, doutor em história e professor de teoria literária na Unicamp, dá uma boa definição do momento: "O mercado de furos estabeleceu um completo descompromisso dos jornalistas com a verdade".


  JOEDSON ALVES/AE  
DE VOLTA À VIDA: mesmo sem saber a acusação, ele quer que lhe reconheçam a inocência

Eduardo J. lembra que, depois da primeira reportagem da revista Veja, em junho de 1999, sobre os telefonemas entre o ex-secretário da Presidência e o juiz Nicolau dos Santos Neto, do caso TRT-SP, botou debaixo do braço um dossiê que explicava as ligações e o relacionamento do Planalto com o juiz e percorreu todas as redações de São Paulo e Brasília. De todos os encontros, ficou-lhe na memória o que a experiência "do velho Frias" — Otavio Frias de Oliveira, publisher e proprietário da Folha de S.Paulo, lhe disse: "Eduardo, todo mundo conhece você, sabe como você trabalha, não dê bola que isso não vai progredir". Em 2000, outra irmã de Eduardo J. alertou o PT, em mais especificamente Marco Aurélio Garcia — na época, secretário de relações internacionais do partido — sobre a injustiça que estava sendo cometida. A resposta foi que eles deveriam se despreocupar, pois "o alvo era FHC".

A competição na mídia chegou a tanto que mais de um jornal tentou fechar um acordo com o procurador Luiz Francisco para ter acesso em primeira mão a tudo quanto ele conseguisse reunir de suspeito contra o Planalto. Revelou-se uma aliança do roto com o esfarrapado, mas foi esse ambiente que levou o maior jornal da capital do país, o Correio Braziliense, a produzir a mais desvairada reportagem sobre o caso Eduardo J. e a ter de fazer um contundente pedido de desculpas aos leitores.

Esse caso começou com uma manchete servida ao público do Correio no dia em que Eduardo J. deporia na subcomissão do Senado, em agosto de 2000. A reportagem era a pá de cal na possibilidade de o ex-assessor de FHC sobreviver ao questionamento dos senadores e rasgou de fora a fora, na primeira página, o título: O Grande Negócio. A manchete do dia seguinte, garrafal como a do dia anterior, era: O Correio Errou.

O grande negócio foi descrito, segundo o autor da reportagem, com base em uma informação que lhe fora "soprada" por um telefonema. Eduardo J. estaria por trás de um megacontrato de R$ 120 milhões assinado pela empresa DBO, de Curitiba, com o Banco do Brasil. Um contrato para a criação de um novo sistema de transmissão de dados, que podia chegar a negócios de R$ 3 bilhões e era executado por uma tal de DTC, de propriedade do empresário Mário Petrelli e da qual Eduardo J. fora sócio. "Redigi a matéria sem ouvir Mário Petrelli nem ninguém ligado a ele. Não ouvi os donos da empresa DBO", confessou o repórter. A redação descobriria, depois, que o contrato da DBO com o banco não existia, a DTC não tinha relação com a DBO e, pior, a DBO que existia chamava-se BDO, mas ficava em São Paulo, não no Paraná.

O azar do Correio é que um jovem repórter da área de cultura, quase estreante na editoria de política, farejara a impunidade que reinava nas redações e dera "tratamento jornalístico" a uma carta anônima que chegara a todas as redações e sucursais de Brasília. Todos os erros da reportagem eram erros da carta anônima. A ombudsman da Folha de S. Paulo saudou o Correio por ter reparado o erro e lamentou que o monumental tropeço tivesse acontecido com um jornal que, "no momento, além da Folha, [era] dos poucos a demonstrar empenho em apurar o caso Eduardo Jorge". A verdade é outra: ninguém apurou nada do caso Eduardo J. porque a competição predatória estabelecida permitia que apenas se desse corpo, tinta e papel às suspeitas de Luiz Francisco.

FONTE MENTIROSA. A isenção sumiu das redações, e o espírito de revanche passou a pautar algumas reportagens. O exemplo mais risível, mas de conseqüências avassaladoras, começou com uma reportagem sobre o lendário disquete de Eduardo J. com cargos e favores devidos pelos parlamentares ao Planalto. A fonte da reportagem, publicada em O Globo, o professor universitário Carlos Pereira, enganara meio mundo ao mentir, na tese sobre a suposta dominação do Congresso pelo Planalto por meio de mecanismos de cooptação, que o ex-ministro Eduardo J. lhe fornecera dados relacionados às negociações do Executivo com os parlamentares.

Pereira enganara o próprio O Globo e teve de se retratar. Enviou e-mail à redação afirmando: "Com referência à matéria publicada no jornal O Globo, no dia 30 de abril de 2000, gostaria de deixar claro que o ex-ministro Eduardo Jorge Caldas Pereira não me forneceu dados relacionados às negociações do Executivo com os parlamentares. Atenciosamente, Carlos Pereira". Para o sociólogo Fernando Jorge, irmão do ex-secretário, o caso Eduardo J. "revela o estado de instituições como o Ministério Público e a imprensa. Experiências desse tipo só podem ser superadas se conseguirmos transformá-las em algo construtivo", diz, ao passar em revista a vida recente de uma família que mora há três gerações em Brasília e que pode juntar até cerca de 60 pessoas nos fins de semana. Uma ala apóia FHC, outra é petista de carteirinha. Os tios estão mais para o PSDB; os sobrinhos, para o PT.

Não descrêem de nada, mas, entre eles, independentemente do matiz político, há hoje esta certeza: "O Ministério Público mostrou-se o reino da impunidade por estar sem controle, aberto à hiperpolitização e com mecanismos de sanção estritamente corporativos, inócuos". Eles já chegaram a uma conclusão. A nossa, na mídia, qual é?

O dossiê Eduardo Jorge ISTO É

Roberto Castro  
De volta: mal assumiu a função de coordenador
da campanha do PSDB à Presidência, o ex-ministro Eduardo Jorge vira alvo de acusações de auditores fiscais
 
Conclusões finais: processo aponta crimes de lucros fictícios a captação de recursos oriundos do Erário
Incompatibilidade: recursos declarados ao Fisco não têm origem comprovada
 

Corrupção
O dossiê Eduardo Jorge
Força-tarefa de auditores da Receita conclui
investigação e aponta que coordenador de
Geraldo Alckmin criou empresas com "laranjas"
e emitiu notas frias para arrecadar dinheiro
junto a fornecedores do DNER
Por Hugo Marques

Na manhã da quarta-feira 19, um sorridente Eduardo Jorge Caldas Pereira recebia os políticos e convidados para a inauguração do comitê de campanha do presidenciável Geraldo Alckmin em Brasília. De braços abertos, saudava: "Bem-vindos, bem-vindos!" Ex-secretário-geral da Presidência da República no governo de Fernando Henrique Cardoso, ele agora é um dos coordenadores da campanha de Alckmin. De grand réceptionniste da festa, EJ, como Eduardo Jorge é chamado, sumiu em minutos, antes mesmo da chegada de Alckmin. A mudança de semblante aconteceu após ele ser informado por ISTOÉ do conteúdo de um dossiê feito por uma força-tarefa de auditores da Receita Federal. A documentação está guardada sob o manto do segredo de Justiça, em dois processos que tramitam em Brasília. Ao analisar as contas de Eduardo Jorge, os auditores encontraram doações ao PSDB com recursos oriundos do Erário público, movimentação incompatível com a renda, uso de "laranja", distribuição fictícia de lucros e "notas fiscais frias", entre outros crimes. O homem que sobreviveu a alguns dos principais escândalos no governo de FHC – e não foi condenado em nenhum – tentava nesta campanha dar a volta por cima da imagem arranhada. Será difícil. "Vou apresentar documentos à Justiça e mostrar que a história é outra", promete. Informado sobre os relatórios que o envolvem com os crimes, ele disse que as informações serão dadas posteriormente.

Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
"Vou apresentar documentos à Justiça
e mostrar que a história é outra"
O "Relatório Final", um dos documentos do dossiê, é a compilação dos crimes. Está anexado a um processo da 3ª Vara da Justiça Federal. O documento é assinado pelos auditores Marco Antonio Macedo Pessoa, Washington Afonso Rodrigues e Vicente Luiz Dalmolim. Os auditores são contundentes ao discorrer sobre "doações ao PSDB com recursos oriundos do Erário". Eles concluíram que os valores repassados pelas empresas de Eduardo Jorge à campanha da reeleição de FHC em 1998 "tiveram por origem recursos oriundos de órgãos públicos, mormente do DNER". O DNER é o extinto Departamento Nacional de Estradas e Rodagem, hoje DNIT, responsável pela contratação de empreiteiras e um tradicional foco de corrupção federal. Para concluir que o dinheiro do DNER irrigou a campanha de FHC com R$ 250 mil, os auditores fizeram análise dos contratos de prestação de serviços das empresas de Eduardo Jorge com a seguradora Sul América e dos contratos desta empresa com o DNER, o Ibama, o Ministério do Exército e o Palácio do Planalto. O exame do conjunto de documentos revelou que a origem integral dos lucros gerados pelas empresas Metacor e Metaplan, ambas de EJ, foram os contratos assinados pelo DNER com a Sul América Seguros entre 1993 e 1995. Estes contratos "foram dados em administração" para a Metacor e a Metaplan. Concluíram, desta forma, que EJ seria o responsável pela "captação" de órgãos públicos para fechamento de contratos com o grupo Sul América.

Eduardo Jorge também está envolvido com um esquema de notas fiscais frias. A partir de uma amostragem, a investigação levantou a situação fiscal dos emitentes de notas fiscais para as empresas de EJ, visitou sedes das firmas e entrevistou seus titulares. Notas fiscais contabilizadas por Metacor e Metaplan como despesas não foram oferecidas pelos emitentes à tributação. A força-tarefa concluiu que houve "planejamento ilícito" para uso de tais simulacros. De oito notas de fornecedores analisadas, cinco não foram declaradas à Receita, duas estão com valores declarados pela metade e outra é de empresa inativa. Os emitentes de notas fiscais declararam à força-tarefa que suas empresas foram constituídas visando fornecer notas para as empresas Metacor e Metaplan. Para isso, eles recebiam "ordens hierárquicas superiores". As empresas Pap Investimentos e O Comprador só emitiam notas fiscais para a Metacor e a Metaplan. Para os investigadores, estas "empresas de papel" eram parte da trama para fornecer nota fiscal para dar cobertura à saída de recursos e evitar tributação. Além das notas fiscais frias, foram detectadas empresas fantasmas, verdadeiras usinas de produção de notas. Onde deveria funcionar a Monte Castelo Idéias Ltda. foi encontrado um hotel.

A partir de uma análise das correspondências de Eduardo Jorge, a força-tarefa identificou suas "confissões" espontâneas. A Receita fez uma análise das correspondências eletrônicas que EJ trocou com os sócios e concluiu pela existência de montagem de passivo fictício, participação como sócio oculto e uso de "laranja" na empresa VML Corretora de Seguros. Em uma das mensagens sobre a VML, ele pergunta aos sócios: "Não estaria na hora de se formalizar as participações?" Os documentos revelam a saída "forjada" de EJ do quadro social de algumas empresas para fraudar a Fazenda Pública, concluem os investigadores. É movimentação financeira incompatível com a renda declarada. Os auditores encontraram irregularidades nas contas pessoais de EJ. Em 1999, primeiro ano do segundo mandato de FHC, Eduardo Jorge declarou bens no valor de R$ 2 milhões, um aumento de 107% em relação ao ano anterior. Funcionário de carreira do Senado, naquele ano ele movimentou R$ 1,7 milhão em sua conta bancária. É o que atesta a declaração da CPMF apresentada pelo Unibanco à Receita. Os recebimentos que EJ chamou "falsamente" de lucros e dividendos, segundo um dos relatórios, somam R$ 577 mil – foram R$ 352 mil recebidos da Metaplan, R$ 125 mil da LC Farias e R$ 100 mil da EJP. Um dos relatórios conclui que há fortes indícios de que essa soma apresenta sinais de não possuir origem comprovada.

O que poderá complicar ainda mais a vida de Eduardo Jorge são os depoimentos em mãos da força-tarefa. Em setembro, o ex-contador do Grupo Meta, Luiz Eduardo Poças Fonseca, foi à Procuradoria da República no Distrito Federal. Ele ingressou no grupo em 1994, como auxiliar contábil, e saiu como contador em setembro de 2000. Fonseca cuidava pessoalmente da contabilidade da Metacor e da Metaplan. Eduardo Jorge tinha uma sala dois andares abaixo. Despachava protegido por sistema de segurança especial e grades de proteção. Em seu depoimento, o contador revelou que as unidades da Metaplan e da Metacor em Barueri, em São Paulo, foram abertas com o objetivo de pagar menos impostos, "funcionando como empresas de fachada". Fonseca achava estranho a empresa não ter lucros e mesmo assim a diretoria determinar a distribuição de dinheiro entre os sócios. Revelou ainda que as notas fiscais da empresa Oikos, envolvida com notas fiscais frias, tinham ligação com um tal de Joãosinho, funcionário do grupo que tinha sala dentro do DNER, de onde saía o dinheiro do PSDB. Era a ponta do esquema dentro do serviço público.

O carma de EJ teve início em 12 de agosto do ano passado. A Justiça Federal remeteu ao Ministério Público 125 caixas com documentos custodiados na Corregedoria-Geral da Receita Federal. Foi instaurado um inquérito civil público. A força-tarefa teve acesso também a livros-caixa, correspondências e declarações de bens do ex-ministro e de suas empresas. Os investigadores colheram depoimentos de contadores e personalidades que tiveram negócios com EJ e suas empresas. Como resultado da análise, foram encontrados oito tipos de crimes. A força-tarefa concluiu que somente no ano de 1998 duas das principais empresas do ex-secretário, a Metacor e a Metaplan, omitiram receitas no total de R$ 1,73 milhão. No ano seguinte, concluíram os auditores, houve distribuição de lucros fictícios para EJ. Ele sacou R$ 352 mil das suas empresas sem que elas possuíssem fundos suficientes para distribuir lucros, o que torna este registro uma "fraude contábil", diz um dos relatórios.

Após análise de todo o dossiê sobre Eduardo Jorge e de 28 pessoas físicas e jurídicas envolvidas com as irregularidades, o Ministério Público impetrou ação civil pública na Justiça Federal de Brasília, que corre sob segredo de Justiça. Segundo a Justiça Federal, a ação é por ato de improbidade administrativa e foi impetrada contra Eduardo Jorge Caldas Pereira, as empresas Metacor e Metaplan. Os procuradores Lauro Pinto e Valquíria Quixadá pedem ressarcimento do Erário e perda dos bens e dos direitos políticos de Eduardo Jorge. O ex-secretário já teve acesso aos autos. "Está nas mãos do juiz para despachar", disse ele a ISTOÉ. "Vou apresentar documentos." Nervoso, acrescentou: "Não vou misturar assuntos pessoais com campanha." No início da tarde da quarta-feira 19, EJ reapareceu no comitê de Alckmin. Já não exibia o sorriso e a alegria demonstrada na inauguração daquela manhã – mas somente um semblante sombrio.

Thursday, June 29, 2006

REINALDO AZEVEDO A patrulha dos petralhas e André Gide

A patrulha dos petralhas e André Gide

Vocês acreditam que os petralhas tentaram aparelhar até o meu blog, a exemplo do que fizeram com a entrevista que dei ao Observatório da Imprensa? Alguns já mandaram mensagens me esculhambando — em vez de discordar disso ou daquilo, como seria razoável — e, claro, eu não as publiquei. Sim, este blog tem um Poder Moderador: "Eu". E agora estão protestando. Revista, vá lá, é coisa cara de fazer. Eu até compreendia, na extinta Primeira Leitura, que alguns "exigissem" que suas mensagens de desaforo fossem publicadas — nunca cedi. Mas blog? É de graça! O cara que faça o seu se acha que me xingar é uma coisa importante. Se eu me ofender, processo. Simples e democrático. A privatização promovida pelo governo FHC, felizmente, propiciou o grande desenvolvimento da tecnologia da informação, democratizando-a. O mais engraçado que tentam me encostar na parede apelando a meu "espírito democrático". Rá, rá, rá. André Gide tem uma frase interessante — que não vai entre aspas porque reproduzo apenas o sentido: não permitirei que outros, em nome dos seus princípios (ou falta deles), me neguem o que eu jamais lhes negaria em nome dos meus. Entenderam? Se vai entrar na minha casa, não vai me xingar. Afinal, nem mesmo posso dar uma muqueta no nariz do cretino. Isso não impede que o petralhismo possa me ler. Mas vai ficar quietinho, como um cão tolerado pela gerência. Ou aprender a debater sobre duas patas. Sei que assim não ganho adeptos para as minhas supostas causas. Não sou pastor de ovelhas, de almas ou de metáforas.

Monday, June 05, 2006

Política - O País do Mensalão, um ano depois

Política - O País do Mensalão, um ano depois


Valor Econômico
5/6/2006

O que o Brasil aprendeu com as denúncias do chamado Mensalão, feitas há um ano? Para a maioria da opinião pública, a sensação imediata e por uns cinco meses era de que a bombástica entrevista do deputado Roberto Jefferson, um herói sem nenhum caráter tal qual Macunaíma, produziria a maior crise da redemocratização recente. Haveria depuração ética no Congresso Nacional, quiçá a reformulação de vários aspectos do sistema político e, para alguns mais apressados, o sepultamento do Governo Lula e do seu partido. O resultado final, contudo, foi outro: houve um pequeno número de parlamentares cassados, por enquanto há uma baixa repercussão eleitoral do assunto e, sobretudo, não se constituiu um projeto modernizador de nossas instituições, capaz de reduzir as chances de novos valeriodutos e afins. A maior lição de tudo isso é que o País se tornou capaz de conhecer suas mazelas mais do que em qualquer época histórica, porém, ainda não sabe como acabar com os males que descobre e repugna.

A análise pessimista dos resultados da crise política é a predominante hoje. Entretanto, há visões diferentes quanto aos fatores que mais ressaltariam o desastre do processo. Para uns, a liderança de Lula nas pesquisas é o maior sinal de que o País piorou após todas as denúncias. Segundo este raciocínio, como os mais importantes líderes PT estiveram, de um modo ou de outro, no centro do valerioduto e afins, o Brasil só teria aprendido com o Mensalão se punisse tais pessoas, inclusive o presidente da República, que deveria saber o que estava ocorrendo ao seu redor. Caso não fosse possível o impeachment, pensa esta corrente, pelo menos o projeto reeleitoral deveria ter naufragado completamente.

Argumentos corretos fazem parte desta visão. O PT deve inúmeras explicações à sociedade brasileira, principalmente porque seu ideário defendia exatamente o oposto que se constatou no financiamento arquitetado por Marcos Valério e chefes petistas. Não importa saber se Lula conhecia ou não os episódios. O essencial seria ele ter condenado com mais veemência os atos de seus colegas partidários, alguns muito próximos do poder. Em política, o pedido de desculpas não é irrelevante, mas bem mais importante é punir e deixar marcado que não se tolerará mais os comportamentos recriminados pela população.

Em outras palavras, o presidente da República teria, pela legitimidade que detém, de comandar uma reforma em seu partido, fazer as mudanças que estavam ao seu alcance- por exemplo, fazer uma devassa nos Correios e noutros órgãos acusados de corrupção - e, acima de tudo, propor ao Congresso Nacional uma reformulação nas instituições que possibilitaram o valerioduto. Se fizesse tudo isso, Lula sairia maior da crise em termos de biografia política, independentemente dos possíveis efeitos eleitorais.

Descobrimos defeitos mas não os modificamos

Os que centram sua crítica apenas no PT e no presidente Lula, todavia, sofrem de uma séria miopia política. Neste grupo, a maioria simplesmente queria derrubar o governo e/ou evitar a reeleição. São os eleitores mais antipetistas e antilulistas, além de grande parte da oposição. O discurso padrão deles é conhecido: o Mensalão foi o maior episódio de corrupção de nossa história e quem o produziu deve ser urgentemente extirpado do poder. Os mais exaltados desse lado chegaram a dizer que queriam se livrar por 30 anos "dessa raça".

Os fatos revelados pela crise são muito graves. Só que o partidarismo, o emocionalismo e a falta de perspectiva histórica atrapalharam muitos analistas. O valerioduto e afins não foi o maior episódio de corrupção da história do Brasil, e sua proeminência se deve à transparência e ao controle social atuais, avanços inéditos em nossa trajetória. Observe-se, por exemplo, o regime militar. Houve um crescimento enorme da dívida externa ao mesmo tempo em que obras faraônicas foram idealizadas, sendo que algumas sorveram bilhões de dólares sem que tivessem sido terminadas. Recomendo ao leitor-eleitor que visite a Transamazônica e perceberá que a corrupção já foi maior em outras épocas.

A maior enganação do último ano foi a criação de uma imagem de muitos políticos oposicionistas, que se colocaram acima do bem e do mal em termos éticos. Nunca acreditei em salvadores da pátria e homens puros, maneira pela qual os petistas neo-udenistas se apresentavam. Mas ao ver na TV certos congressistas, conhecidos por suas estripulias passadas, como fazer escuta ilegal de pessoas comuns ou comandar oligarquias regionais sabidamente corruptas, comecei a me preocupar com o destino das investigações. Não deu outra: quando as denúncias começaram a respingar em importantes integrantes dos partidos oposicionistas, preferiu-se cozinhar em "banho-maria" o presidente, considerado à época politicamente liquidado. Quem sabe fazer contas deve ter percebido que muitos deputados foram absolvidos graças a votos - ou ausências - que vieram também da oposição.

A transformação de uma séria denúncia de corrupção em tão-somente objeto de disputa político-partidária não foi obra do presidente Lula. Os oposicionistas ajudaram petistas e parlamentares de partidos que sempre foram "mensaleiros", inclusive no Governo FHC, a desmoralizar o processo de investigação, sepultando as esperanças de milhares de brasileiros que acreditavam ter então a chance de passar a limpo o País.

A oposição só poderia expurgar os males da perversa aliança entre Marcos Valério e os petistas se liderasse um processo de reforma institucional, admitindo que o problema detectado era estrutural, e não apenas conjuntural. Mas sua estratégia moveu-se mais pelo calendário eleitoral, tal qual fazia o PT em momentos similares do Governo FHC.

A perspectiva histórica realça que é preciso ir além do pessimismo. O Brasil passou por toda esta crise com instituições democráticas extremamente fortes. Nunca fomos tão transparentes, nunca conhecemos tanto os defeitos do sistema político brasileiro. Falta aprender a corrigir os males detectados. E, infelizmente, o debate político e a mobilização social estão ainda no estágio do desconstruir, e não do construir.

Saturday, May 20, 2006

Novo diesel vai mudar a face do agronegócio' - ENERGIA



H-Bio substituirá diesel já em 2007

Segundo a Petrobrás, o volume da primeira etapa será de 10% e crescerá gradativamente a cada ano

Kelly Lima

A Petrobrás vai substituir, a partir de 2007, pelo menos 10% do diesel importado para suprir o mercado nacional com um tipo de óleo vegetal refinado de soja de menor valor. Batizado de H-Bio, o novo diesel será produzido inicialmente apenas nas refinarias da Petrobrás de Minas Gerais e Paraná (Regap e Repar), mas deverá também ser processado em outras três refinarias a partir de 2009. A idéia é utilizar nesta primeira fase do projeto 9,6% do óleo de soja refinado exportado pelo País, porcentual que deve aumentar gradativamente.

Segundo o diretor de Abastecimento e Refino da estatal, Paulo Roberto Costa, a adoção deste tipo de processo ainda depende de estudos referentes à logística de distribuição e construção, nas refinarias, de novos tanques de armazenamento do óleo. Ele não soube dimensionar o volume de investimento necessário nas unidades para adaptação ao processamento do óleo vegetal, mas disse que será "pequeno" perto do ganho obtido com a substituição do diesel mineral.

"Se o processo resultasse num diesel mais caro do que o atual, certamente teríamos arquivado o projeto", comentou. Segundo ele, a localização inicial da produção em Minas Gerais e Paraná foi estratégica por causa da maior proximidade das refinarias com os centros agrícolas produtores de soja.

BIODIESEL
O diretor fez questão de frisar que o H-Bio não vai concorrer com o biodiesel, que hoje vem sendo desenvolvido no País e terá sua adição obrigatória na proporção de 2% a partir de 2008 e de 8% a partir de 2013. "São dois processos complementares", afirmou.

A principal diferença entre ambos é que, no caso do biodiesel, o óleo, originado dos grãos de plantas como mamona, girassol, soja, ou dendê, é adicionado ao diesel nas distribuidoras, após passar por um processo químico em uma planta de transesterificação. Já no caso do H-Bio, o óleo vegetal entra no processo de refino do petróleo, juntamente com hidrogênio. O resultado desta mistura é um diesel equivalente ao comum, mas com quantidade reduzida de enxofre e, por isso, menos poluente.

Segundo o diretor da Petrobrás, os testes realizados até o momento chegaram a uma mistura limite de 18% de óleo vegetal para outra parte derivada do petróleo, mas isso não impede uma ampliação deste porcentual no futuro. "Por enquanto estamos limitados a uma certa produção por causa da falta de contratos a serem firmados com produtores agrícolas, além de nossas questões logísticas, mas nada impede que num futuro bastante próximo possamos dizer que plantamos diesel, da mesma maneira que plantamos álcool hoje."

Costa explicou ainda que o óleo de soja foi escolhido devido à sua elevada produção hoje no País, de cerca de 5,6 milhões de toneladas por ano, ante menos de 200 mil toneladas anuais de óleos derivados de outros grãos. "Precisamos de escala e neste cultivo há espaço para esta demanda", argumentou. Segundo ele, a Petrobrás vai acompanhar o preço da soja no mercado internacional para remunerar os produtores agrícolas nos contratos a serem firmados.

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NOVO COMBUSTÍVEL

O que é

- O biodiesel é fabricado a partir de grãos ou óleo refinado (de soja, mamona, dendê, girassol ou algodão) e adicionados ao diesel mineral nas distribuidoras.

- O H-Bio é o processo no qual o óleo refinado recebe hidrogênio e uma parte de óleo diesel mineral (derivado de petróleo) e dá origem a um tipo de óleo diesel de melhor qualidade, com uma quantidade menor de enxofre. Este produto, então, é enviado para as distribuidoras que ainda adicionam o biodiesel

Para que serve

- Complementa o programa de utilização de fontes alternativas de energia, com benefícios ambientais

Como será criado

- Curto prazo (2007): Uso de 10% de óleo vegetal em duas refinarias, o que equivalente a 256 mil metros cúbicos por ano (9,4% do óleo de soja exportado)

- Médio prazo (2008/2009): uso de 5% de óleo vegetal em cinco refinarias, o equivalente a 425 mil metros cúbicos por ano (15,5% do óleo de soja exportado)

Vantagens

- Melhora a qualidade do diesel com a redução de poluentes dos veículos a diesel

- Reduz a dependência energética externa do País

- Tem um custo de produção menor, por não utilizar diesel importado, hoje cotado a US$ 90 o barril

- Permite o óleo vegetal de diversas origens

- Cria empregos no campo e na indústria de oleaginosas

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Biodiesel será produzido em unidade experimental

O presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, inaugurou ontem no Rio Grande do Norte uma unidade experimental de biodiesel, que vai produzir 16 mil toneladas por ano do produto, a partir de investimentos de R$ 19 milhões. A perspectiva é de que cinco mil famílias sejam empregadas no cultivo de 11.500 hectares de mamona e 1.500 hectares de girassol, oleaginosas que serão utilizadas para a produção do biodiesel.

A planta experimental foi instalada no Pólo de Guamaré, situado a 180 quilômetros de Natal, onde a estatal possui uma base industrial. Junto com a unidade de biodiesel, também foram inauguradas a terceira Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN) e a Unidade de Querosene de Aviação (QAV). Nos últimos oito anos, a Petrobrás investiu R$ 1,8 bilhão em ampliações no pólo.

Na Planta de Querosene de Aviação foram aplicados R$ 115 milhões para produzir 1,5 mil barris por dia de QAV e duplicar a produção de diesel do Pólo, que passará a ser de 8 mil barris por dia, atendendo à demanda do Estado com excedentes para a Paraíba e o Ceará.

Na UPGN, os investimentos foram de R$ 182 milhões, o que possibilitará a ampliação da capacidade de processamento do gás natural do Pólo de Guamaré em 40%.

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'Novo diesel vai mudar a face do agronegócio'

Para Rodrigues, tecnologia é resultado de uma articulação entre indústria de petróleo e agricultura

Lu Aiko Otta
Fabíola Salvador

A Petrobrás desenvolveu um novo tipo de diesel, inédito no mundo, que usa óleo de soja e de outros vegetais no processo de refino. O resultado é um combustível mais barato, menos poluente e que vai mudar a face do agronegócio mundial, segundo avaliou o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.

"É um sinal concreto de mudança na história mundial da energia e dos combustíveis", avaliou. Para ele, a nova tecnologia da Petrobrás significa mais um casamento entre a agricultura e a indústria do petróleo, a exemplo do que foi o Proálcool há 30 anos, e permitirá que as reservas de petróleo durem mais tempo.

O novo diesel, chamado H-Bio, é resultado da adição de até 10% de óleo vegetal - que pode ser de soja, algodão, girassol, mamona, dendê, palma ou qualquer outra semente oleaginosa - durante o processo de refino.

O produto final tem as mesmas características do diesel 100% tirado do petróleo - com a diferença que tem menos enxofre em sua composição. Por isso, é menos poluente e de melhor qualidade. A esse diesel, ainda será possível adicionar o biodiesel.

PRODUÇÃO
O H-Bio será mais barato do que o diesel importado. Hoje, o Brasil importa de 5 bilhões a 6 bilhões de litros de diesel por ano, já que a produção local não é suficiente para suprir toda a demanda. O barril do diesel custa US$ 90, enquanto um barril de óleo de soja sai a US$ 63,00.

Já no primeiro trimestre de 2007, três refinarias da Petrobrás, em Minas, no Rio Grande do Sul e no Paraná, começarão a produzir o H-Bio adicionando óleo de soja. A estimativa é que, com isso, a demanda do grão aumente em 1,2 milhão de toneladas.

"Do ponto de vista do mercado, é uma coisa aparentemente sem expressão, é 2% da produção de soja do País", comentou Rodrigues. "Ano que vem será 4%, e em 2020, o que vai ser... O céu é o limite."

O entusiasmo do ministro se baseia no fato que, há 30 anos, o Proálcool foi recebido com ceticismo e hoje "o mundo inteiro está atrás do etanol". Ele acredita que o mesmo ocorrerá com o H-Bio.

O ministro acredita que os Estados Unidos, por exemplo, que também produzem soja, podem se interessar pela tecnologia. Da mesma forma, a Europa poderá desejar produzir seu próprio H-Bio, utilizando óleo de colza (uma oleaginosa).

"Eu sempre acreditei que o biocombustível seria o novo paradigma da agricultura mundial", disse. "Faltava, para que o discurso se transformasse em realidade, uma articulação real entre a indústria de petróleo e a agricultura." Foi isso o que a Petrobrás encontrou ao desenvolver o H-Bio.

ABASTECIMENTO
Rodrigues acredita que não haverá problemas de abastecimento, caso a demanda por óleo de soja cresça de forma exagerada a partir do H-Bio.

"Não tem perigo, somos exportadores de soja", afirmou. "Exportamos mais de metade de nossa produção."

É uma situação diferente da do álcool, em que 95% da produção é consumida pelo mercado interno.

Atualmente, o cultivo de soja ocupa 23 milhões de hectares no País. Mas, lembra o ministro, ainda há 90 milhões de hectares de terras agricultáveis, hoje ocupadas com pastagens. Portanto, há espaço para ampliar o cultivo do grão, caso a demanda cresça.

Rodrigues lembra que, além disso, não é só o óleo de soja que pode ser utilizado para produzir o H-Bio. Rodrigues acredita que o cultivo de óleo de palma na Amazônia, por exemplo, ganhará forte impulso com a nova tecnologia da Petrobrás.

 


Saturday, April 22, 2006

Livro de Mercadante apresenta Lula como estadista

Livro de Mercadante apresenta Lula como estadista

Lula Marques/Folha Imagem
 

 

O senador petista Aloizio Mercadante (SP) lança nesta segunda-feira o livro "Brasil: Primeiro Tempo". Contém o pecado da adjetivação engajada. Lula, por exemplo, é apresentado como um "estadista", cuja "autoridade e competência" é reconhecida pelo "mundo". "Não há líder no planeta que não queira reunir-se com ele", escreve Mercadante, "para trocar idéias e percepções sobre a construção do futuro".

 

À margem dos vícios de retórica, a maior virtude do livro encontra-se em seus trechos mais enfadonhos. São nacos do texto que compõem um minucioso exame comparativo dos três primeiros anos de Lula com os oito anos de FHC. Mercadante promove em 286 páginas, levadas às prateleiras sob o selo da Editora Planeta, um exaustivo cotejo entre os dois governos.

 

É, nas palavras do autor, "a confrontação de dois modelos". Um, "de inspiração neoliberal", e outro, "progressista". A obra coleciona informações e estatísticas das duas eras. O PSDB decerto terá dados diferentes a exibir. Segundo a lição de Disraeli (1804-1881), resgatada na autobiografia de Mark Twain, "há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas".

 

Assim, é razoável supor que, a partir da divulgação da "verdade" de Mercadante, o tucanato também apresente a sua "verdade". Terá de fazê-lo, porém, com números, a exemplo do senador petista. E o (e)leitor escolherá, entre as duas "verdades", aquela que lhe pareça mais plausível. O que há de relevante no livro é que, ao dar contornos numéricos às gestões de Lula e de FHC, o trabalho introduz algo sólido num debate que, até aqui, perde-se em gasosos discursos eleitorais.

 

A julgar pelos números reunidos por Mercadante, um Lula de três anos (2003-2005) vale mais do que um FHC de oito (1995-2002). No levantamento composto pelo senador, a gestão atual prevalece sobre a anterior em todas as áreas, da política externa à econômica, passando pela social. Veja aqui um quadro comparativo, que foi inserido entre as páginas 229 e 233 do livro.

 

Eis alguns exemplos empilhados no texto de Mercadante: Sob Lula, a taxa anual de crescimento das exportações foi de 25,1%, contra 4,2% de FHC. O saldo comercial acumulado em três anos de Lula resultou em superávit de US$ 103,8 bilhões, contra um déficit de US$ 8,7 bilhões anotado nos oito anos de FHC. A taxa de "desemprego aberto", que crescera 35% na gestão FHC, teria diminuído 9,83% sob Lula. Também a taxa média de crescimento do PIB teve desempenho menos constrangedor sob Lula (2,54%) do que sob FHC (2,31%).

 

Antecipando-se ao contra-ataque tucano, Mercadante anota na página 26: "Alguns críticos argumentam que o governo está aproveitando conjuntura internacional favorável. É verdade. Porém, as exportações brasileiras vêm crescendo num ritmo bem superior à média global. Nesses três anos do governo Lula, estima-se que as exportações mundiais tenham crescido cerca de 60%, ao passo que as exportações brasileiras aumentaram 96%".

 

Entre 95 e 96, "auge do Plano Real", anotou Mercadante, com "a economia internacional em expansão e os preços externos mais favoráveis", as exportações brasileiras foram tonificadas em 9,6%, contra um incremento de 26% nas exportações mundiais.

 

Para Mercadante, o governo Lula mudou "a qualidade do nosso desenvolvimento". "Não é tudo o que gostaríamos de ter feito", escreve. "Mas não é pouco." O senador dedica um capítulo à "redução" da inflação, iniciada sob FHC, e ao "controle" do flagelo da escalada de preços, assegurado sob Lula. A análise consta do capítulo número quatro, que você pode ler aqui, enquanto aguarda pelas "verdades" do PSDB.

Escrito por Josias de Souza às 00h06

Sunday, April 16, 2006

Roberto Jefferson: 'Não sou pior do que os caras do PT'

O DIA
Roberto Jefferson: 'Não sou pior do que os caras do PT'

Ex-deputado e ex-presidente do PTB, o político, de 52 anos, diz não ter arrependimento por denunciar esquema de distribuição de mesada encabeçado pelo PT após se sentir prejudicado

Dácio Malta e Fabiana Sobral

Rio - Mesmo longe do Congresso Nacional, o ex-deputado Roberto Jefferson dispara contra seus maiores desafetos: o PT e seus pares. O advogado, que voltou a exercer a profissão após ter o mandato cassado por quebra de decoro, diz que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, "está podre" por ter, segundo ele, atuado como advogado de um crime de violação de sigilo. Apesar da tempestade, não pretende abdicar da política. Quer eleger a filha, a vereadora Cristiane Brasil, deputada federal, e o genro, Marcos Vinícius, deputado estadual. E avisa: em 2014, volta à luta e vai disputar um cargo executivo.

—Hoje o senhor está arrependido?

—De quê?

—De tudo o que aconteceu. Faria alguma coisa diferente?

—Eu não. Fiz o que tinha que ser feito. A luta era essa, e eu enfrentei essa operação que o PT montou contra mim, que o governo montou contra mim. De peito aberto, fui para essa luta. Disse que ia fazer, e avisei ao País que ia fazer, que eu ia enfrentá-lo, e acabou dando nisso aí. Explodiu isso tudo. Eu faria de novo, sem nenhum problema.

—Qual a sua opinião sobre a queda do ex-ministro Antonio Palocci?

—Um episódio muito ruim. O grave foi tentar intimidar o caseiro, antidemocrático, um negócio de uma violência que acabou arrastando o ministro da Justiça. Funcionou como um advogado para aconselhar o Palocci. Está igual a técnico de futebol. "Estou prestigiado pelo presidente" (repetiu a frase de Bastos da semana passada). Está podre.

O ministro da Justiça está podre, apodreceu. Ele não foi ministro da Justiça. Atuou como advogado de um crime de violação de privacidade, de sigilo de uma pessoa humilde. A máquina do estado foi usada, a Polícia Federal, a Caixa Econômica, para oprimir um caseiro. Se é no Fernando Henrique Cardoso (governo), eu nem imagino o que o PT ia fazer. Se é com o Collor (Fernando)... Se o Collor faz isso com aquele Eriberto (Eriberto França, o motorista que denunciou o ex-presidente), imagina, estava linchado em praça pública.

—O que o senhor acha de a Justiça ter autorizado a investigação sobre o caseiro Francenildo Costa?

—Se tem notícia, que investigue. Que faça uma investigação judicial. Mas do jeito que foi feito, uma coisa de truculência, prepotência...

—Isso chega até o presidente Lula?

—Acho que isso está tão perto do Lula... Mas não sou a favor do impeachment, não. Ele vai querer sair de vítima. Deixa vir a eleição. Senão, vai dar uma de Hugo Chávez (presidente da Venezuela). Vai dividir o Brasil em dois. Ele é o pobre que vai ser perseguido pelas elites.

—Quem é seu candidato à Presidência?

—Vai ser contra o Lula. Quem tiver condição de derrotar o Lula, terá o meu apoio. Não fico com o Lula de jeito nenhum.

—O senhor acha que prestou um serviço à Nação denunciando o mensalão?

—Não vou dizer que fiz isso. Não foi por isso que fiz. Só não sou pior do que os caras do PT. Não sou herói, nem vilão, mas não podia ficar no meu colo um crime que não pratiquei. Sabia que ia ser cassado na hora que rompi com a instituição. Mas não me preocupei com isso. Mais importante que o mandato é a honra pessoal. Eu disse que ia sair de cabeça erguida, pela porta da frente. Caixa 2 todo mundo sempre fez, mas mensalão eu nunca recebi. Não aluguei minha bancada. Financiamento de campanha por fora (caixa 2), sempre foi assim no Brasil.

—Isso vai mudar agora?

—Não vai, não. A legislação não mudou.

—Nada vai mudar?

—Vai. A vigilância do povo é que vai mudar. Quem abusar com despesas eleitorais, com uma campanha muito rica, o povo vai perceber.

—O senhor tem munição para combater ataques?

—Não. Eu vou enfrentar mesmo. Que moral tem petista para me acusar? Que moral tem essa gente? O mais corrupto governo que testemunhei ao longo da minha carreira política é o governo do PT. O PC Farias virou ladrão de galinha perto dessa turma. O símbolo do Lula é macaquinho de souvenir: "não falo, não vejo e não ouço." Esses caras vão falar o quê? Apodreceu. O governo está podre.

—Certa vez, o senhor disse que havia recebido R$ 4 milhões, que havia posto no cofre do PTB, que devolveria esse dinheiro ao PT. Nada aconteceu. Os R$ 4 milhões existem ainda? Foram gastos?

—Se recebi, dei aplicação política a ele. Se recebi. É só essa a resposta. Se recebi, o dinheiro teve uma aplicação política de financiamento de candidatura.

—O senhor teria como apresentar os gastos?

—Claro que não. Se repassei, não vou comprometer ninguém. Meu nome é Roberto Jefferson, não é Genoino. Não colocaria isso nas costas de companheiros meus.

—Recentemente, seu nome acabou citado no escândalo de fraudes na Delegacia Regional do Trabalho.

—Eu não fui envolvido, não. O Henrique Pinho, ex-delegado regional, era pessoa do PTB, sim. Mas embaixo, a estrutura toda é do PT. Era uma luta interna do PT. A chefia da fiscalização e a chefia da Segurança e Medicina do Trabalho são pessoas do PT. E a luta, que está monstruosa na DRT, são grupos da ex-ministra Benedita da Silva e do ex-ministro Jaques Wagner. Eles brigam de se matar por dinheiro.

É uma luta interna do PT. A delegada atual (Lívia Arueira) não fiscaliza as terceirizadas. Isso é do velho acordo do Jaques Wagner. O grande poder aqui no Rio está nas terceirizadas da Petrobras e de Furnas. E esses interesses estão nessas terceirizadas. Ela (a delegada regional) fica prendendo fiscal que fez um favor a uma empresa de ônibus, a um supermercado. Está pegando o varejo, mas embaixo dela, o principal, que é o atacado, as terceirizadas, ela não mexe. E essa é a disputa que se trava, do PT. Quiseram fazer uma bomba de fumaça e jogar no meu colo, mas não cola.

—Mas o PTB teve cargos no governo...

—Todos os cargos que o PTB possuía no governo foram devolvidos. À exceção de um vice-presidente da Caixa, colocado lá pelo Walfrido (Walfrido dos Mares Guia, ministro do Turismo).

—Existe alguma vantagem de obter cargos de segundo escalão?

—Todo mundo, todo partido, quando indica presidente de estatal, é para fazer caixa. Porque a partir do presidente, do diretor, você estabelece uma rede de relação das empresas que gravitam em torno dessa diretoria ou dessa presidência. E eles fazem caixa para o partido, é assim. Sempre funcionou assim. O PT que quis mudar a lógica, quis monopolizar isso. Dava a cabeça... Por exemplo, o presidente da Eletronorte era do PTB, mas, embaixo, toda a estrutura era petista. Então você não conseguia fazer arrecadação para o PTB. O PT quis fazer caixa único para esses repasses do tipo mensalão.

—E durante o tempo que o PTB teve os cargos na mão, ajudou?

—A minha luta foi essa. Os nossos eram apenas as rainhas da Inglaterra. Eu não aceitei fazer esse jogo de receber repasse. Eu dizia para o Genoino, para o Zé Dirceu: quem faz caixa no partido sou eu. Tem uma linha amarela no chão que eu sei como caminho. Não aceito mesada de vocês.

A mesada desmoraliza e escraviza. Eu faço o caixa do partido. Senão, ficaria na mão deles tendo que fazer aquele papelão que fizeram o PP, o PL, o PCdoB. Quem deveria fazer o caixa era eu, através das pessoas que indicava para as empresas, mas não consegui. O PT centralizava. Teve um sistema único de arrecadação de caixa 2. Daí, o megaescândalo com o Marcos Valério.

—O senhor tem medo do José Dirceu?

—O medo que tenho do Zé não é medo dele, em relação a ele. É do que eu pudesse fazer com ele. Ele é muito mentiroso. Meu ímpeto era bater nele, pegar na mão. Graças a Deus, passou.


Thursday, April 13, 2006

Sobre percepções de corrupção

Sobre percepções de corrupção

Eduardo Graeff (13/04/06 08:07)

Permitida a reprodução citando a fonte
http://www.e-agora.org.br

A Folha publica hoje na seção de cartas esta mensagem minha:
"Clóvis Rossi poderia ser mais rigoroso ao afirmar, em sua coluna de
terça, que 'em 1998, a percepção de corrupção no governo FHC era bem
similar [à do governo Lula hoje]'. Admito que algo assim possa
aparecer em levantamentos com perguntas do tipo 'existe corrupção no
governo?' O próprio Rossi já se penitenciou, em alguma medida, pela
contribuição que possa ter dado para esse equívoco, quando engrossou
por um tempo, com grande parte da imprensa, a campanha difamatória
contra Eduardo Jorge, por exemplo. O que os detratores, hoje com todos
os instrumentos do governo, foram capazes de provar contra FHC? Que
denúncias ao menos formalizaram? Eu agradeceria se Rossi consentisse
em responder a uma pesquisa qualitativa: a percepção pessoal dele de
corrupção nos dois governos também é similar?"

Eduardo Graeff, secretário-geral da Presidência da República no
governo Fernando Henrique Cardoso (São Paulo, SP)
Dá para entender, mas não para justificar, que Lula e o PT queiram dar
a questão ética por superada puxando a tudo e a todos para o brejo em
que atolaram. Por isso mesmo, a imprensa, sobretudo jornalistas
qualificados como Clóvis Rossi, deveria ser mais rigorosa do que nunca
nesta hora para mostrar as diferenças e não engrossar o nevoeiro do
cinismo geral. Mas é mais difícil e arriscado ser independente para
julgar do que para não julgar...
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Comentários

Hoja ele (clóvis Rossi) escreveu:

"Caíram definitivamente todas as máscaras. Resta ao PT trocar o 13,
seu número original, pelo 288, o artigo do Código Penal que tipifica
"formação de quadrilha"."

Ele mesmo deu sua contribuição na construção do monstro. Só se
assustou com a criatura porque, como jornalista, pode ser engolido.

Enviado por josé em 13/04/06 10:06

Sr. Graeff, se para cada artigo do Rossi fosse escrita uma carta ou
e-mail, cobrando-lhe coerência e correção, faltaria espaço ou memória
para se manter tudo arquivado.
Discordo quanto a classificá-lo como qualificado.
Seu estilo "uma no cravo e outra na ferradura" visa apenas disfarçar
sua tendenciosidade petista.
Já faz mais de um ano que ele vem, lenta e gradualmente, pulando fora
do barco petista, que prestimosamente ajudou a eleger.
Mas o faz sempre da mesma forma, reclama (desiludido) do PT , mas
sempre lança alguma ressalva contra FHC, com o que contribui para a
"tese" lulista do "somos todos iguais"

Enviado por Flávio em 13/04/06 10:11

Sr. Graeff, esse Rosso pode até ocupar uma coluna de destaque (mesmo
sem chegar aos pés do finado Claudio Abramo), mas é tudo menos
qualificado. Não queira perder seu tempo em debater com um petralhete
pouco enrustido que ninguém mais leva a sério.

Enviado por Troço em 13/04/06 10:37

A tática petista de igualar a todos na lama moral é a parte mais bem
definida das artimanhas para livrar Lula de problemas maiores. Começou
na propina de Waldomiro Diniz, seguiu na crise do mensalão e perdura
até o momento de modo articulado. Assumir e tentar generalizar o uso
do caixa 2, acusar falhas em nossa legislação eleitoral e aquela velha
conversa de herança maldita não bastam para o PT se safar.
É preciso mais. Daí essa nova tática. É uma criação de grupo. Não saiu
só da cabeça do Lula, evidentemente. É simples: ataca-se as famílias
de adversários (e não estou aqui discutindo a culpa de Alckmin neste
caso) e depois surge o próprio Lula como uma ser magnânimo para dar a
mão ao adversário.

Se isso der certo o PT estará não mais como parte de uma organização
criminosa Será uma vítima das imperfeições do sistema. Desse modo,
além de ser "anistiado", o partido pode até levar uma grana como
indenização.

Enviado por José Pires em 13/04/06 11:30

A tática é bem elaborada segue passos muito bem definidos. Um na
frente do outro, bem colocados, cada um em seu lugar em uma cronologia
exata.

Primeiro atacaram a família de Alckmin. Agora o passo seguinte: hoje
Lula disse que "deseja ver o partido longe do que chama de baixaria
eleitoral". Está no blog do Josias de Souza e vai ser o assunto daqui
em diante. Família, para Lula, "não é assunto de campanha".

Parece chantagem e é exatamente isso: não fale dos meus que pouparei
os seus. Desse modo os negócios de Lulinha – o menino-prodígio da
família Lula – com a Telemar ficam de fora do debate político.
Esquece-se os negócios estranhos, que já renderam ao filho do
presidente R$ 10 milhões. E já para debaixo do tapete as dívidas da
filha Lurian, pagas pelo Okamotto. Aliás, deixa-se para lá todos os
problemas familiares de Lula, que não são poucos. Tem as jóias da
patroa. E até compadre no meio.

Enviado por José Pires em 13/04/06 11:32

A cronologia segue perfeita. Primeiro bateram. Agora Lula surge,
magnânimo, ético e generoso – "poupem a família de Alckmin,
companheirada..." Já vejo a notícia nos jornais televisivos comovendo
os brasileiros menos esclarecidos. Esse Lula é bom, respeita a
família.

É mais um desserviço de Lula à cidadania. A idéia é ignorar um dos
maiores males brasileiros: o uso do bem público em favorecimento de
familiares. Mas Lula lá tem algum escrúpulo?

O PSDB faria bem se os seus líderes viessem a público exigir o
esclarecimento de tudo, com família ou sem família no meio. Mas sabem
o que é pior? É capaz dos tucanos aceitarem o acordo.

Enviado por José Pires em 13/04/06 11:35

José Pires,

o Reinaldo escreveu sobre isto. Está lá no site do Primeira Leitura. O
que ele propõe? Convoque-se o filho de um e o filho do outro. Ponto.

Enviado por Vinci em 13/04/06 12:30

Graeff, sugiro que você volte suas baterias para Elio Gaspari. Eita
Petralhóide chato!!!

Enviado por Picolé de Jurubeba em 13/04/06 16:47

Tuesday, April 11, 2006

Lula se reuniu com Palocci e Bastos após acerto de defesa

folha
Lula se reuniu com Palocci e Bastos após acerto de defesa
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

No mesmo dia em que se reuniram na casa do então ministro Antonio Palocci para definir estratégias de sua defesa, o ministro Márcio Thomaz Bastos e o próprio Palocci estiveram com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva até as 22h. Já outros participantes da reunião na casa de Palocci, o ex-presidente da Caixa Econômica Federal Jorge Mattoso e o advogado Arnaldo Malheiros, seguiram para um encontro com a cúpula da estatal num apartamento da Asa Sul, em Brasília.
Antes de partir para destinos diferentes, Palocci, Thomaz Bastos, Mattoso e Malheiros trataram, no dia 23 de março, da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, conforme revelou a revista "Veja".
Na versão de Malheiros, houve uma discussão genérica sobre o que seria o crime de violação de sigilo. De acordo com ele, não entraram em detalhes, como uma eventual confissão de Palocci de que seria o mandante da violação. Na versão do ministro da Justiça, ele apenas apresentou o advogado criminalista ao então ministro da Fazenda.
No entanto, essas versões se chocam com os bastidores apurados pela Folha a respeito da reunião da noite entre Lula, Thomaz Bastos e Palocci. A partir daquela data, Lula passou a estudar nomes para substituir Palocci e sondou o então presidente do BNDES, Guido Mantega, que assumiria a Fazenda na semana seguinte.
Mais: na noite daquele dia, Thomaz Bastos disse a Lula, na frente de Palocci, que achava que o ministro da Fazenda deveria deixar o governo. Ou seja, há indícios de que o ministro da Justiça tinha mais informações do que apenas as obtidas numa discussão genérica sobre o crime de violação de sigilo, como relata Malheiros.
Na reunião com Lula e Thomaz Bastos, Palocci ficou contrariado, mas reconheceu que perdera "as condições políticas" de permanecer na Fazenda. No entanto, de acordo com a versão de membros da cúpula do governo, ele continuou a negar até o dia de sua demissão, 27 de março, segunda-feira, a autoria da violação e do vazamento do sigilo.

Ordem para Mattoso
A Folha apurou que Palocci deu a ordem para Mattoso violar o sigilo. O então presidente da Caixa entregou o extrato a Palocci no dia 16 de março e esteve na casa do então ministro com Malheiros e Thomaz Bastos no dia 23, uma semana depois.
Ao sair da casa de Palocci, Malheiros e Mattoso seguiram juntos, segundo a Folha apurou, para um apartamento na Asa Sul, em Brasília. Lá, se reuniram com a a vice-presidente de Tecnologia da CEF, Clarice Copetti, o consultor da presidência Ricardo Schumann e o chefe-de-gabinete de Mattoso, Philippe Torelly.
Na versão contada ontem à Folha, o objetivo desse encontro foi reconstituir o processo de extração de dados da conta do caseiro Francenildo Costa na Caixa. Não há relato sobre eventual oferta de dinheiro para que um funcionário da estatal assumisse a responsabilidade pela violação. Reportagem da revista "Veja" diz que essa hipótese foi discutida nessa data e que a oferta seria de R$ 1 milhão. Os supostos envolvidos negam.
A tentativa de suborno realmente aconteceu, segundo disseram à Folha dois funcionários que participaram do acesso aos dados bancários do caseiro. Mas, oficialmente, os funcionários negam que tenham recebido tal proposta.

Detalhes
Conforme a Folha apurou, na reunião na casa de Palocci, ele próprio e Thomaz Bastos estavam preocupados em saber detalhes de toda a operação. Mattoso disse que ele mesmo não dispunha de detalhes, mas iria levantá-los com sua equipe. A violação dos dados ocorrera havia uma semana.
Depois, Mattoso e Malheiros ouviram a descrição de Clarice Coppeti. Ela teria deixado claro que todos os procedimentos estavam registrados pelos equipamentos da Caixa e seriam "facilmente reconstituíveis". Frisou, inclusive, que, àquela altura, a comissão de sindicância da própria instituição já tinha condições de reconstituir toda a operação, passo a passo.
O primeiro a sair foi Malheiros, cerca de 40 minutos depois. Mattoso ainda continuou no apartamento, com os assessores.
Dois dias antes dessa reunião no apartamento da Asa Sul, Copetti recebeu, ao lado de Mattoso, uma comissão de senadores da CPI dos Bingos. Na ocasião, expôs dificuldades para rastrear o acesso aos dados bancários do caseiro.
Uma sindicância fora aberta na Caixa para apurar eventuais responsabilidades. Depois de tentar evitar seu depoimento à Polícia Federal, Mattoso assumiu a responsabilidade pela violação dos dados bancários do caseiro -que prefere classificar de cumprimento de uma rotina burocrática- na segunda-feira, 27 de março, data de sua demissão.
Ontem, os supostos participantes da reunião negaram a presença no encontro ou se recusaram a falar sobre ele. Philippe Torelly afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que não tomou conhecimento da reunião. Clarice Copetti também nega. Ricardo Schumann, que reassumiu ontem o cargo no comando da estatal depois de um período de licença, não respondeu à Folha.

Lula segura ministro
Em reunião ontem da Coordenação de Governo, grupo que reúne os ministros que discutem com o presidente as diretrizes da gestão petista, Lula pediu a eles apoio irrestrito a Thomaz Bastos ao debater a revelação da revista "Veja" desta semana de que o ministro da Justiça foi à casa de Palocci com Malheiros.
Foi decidido que o ministro da Justiça se colocaria à disposição para ir ao Congresso o mais rápido possível. Lula acha que Thomaz Bastos agiu corretamente entre "a solidariedade a Palocci e a firmeza para apurar a violação", segundo expressão ouvida pela Folha ontem no Planalto.
Além da avaliação da situação de Thomaz Bastos, Lula e auxiliares ouviram uma exposição do ministro da Fazenda, Guido Mantega. O novo titular da Fazenda disse que, no auge da campanha eleitoral, a economia estará crescendo a uma taxa de 4% ao ano.
(KENNEDY ALENCAR, ELIANE CANTANHÊDE e MARTA SALOMON)

Saturday, April 08, 2006

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